Atwood, Miller, Orwell e Foucault…

Talking With the Anonymous Donors Giving Away Free Copies of '1984 ...

Devo contar para vocês que me considero uma amante dos livros e series que relatam sociedades distópicas. E desde que comecei a ter este contato com os conceitos de Biopoder, Biopolítica, Necropolítica etc. sinto que nós estamos vivendo como se fossemos parte duma distopia que virou realidade.

Desde 1984 de George Orwell até “The Handmaid’s Tale” série criada por Bruce Miller baseado no livro de Margaret Atwood (O conto da Aia) disponível no Globo Play. Hoje tentarei fazer uma relação desses conceitos com os acontecimentos nesses mundos contrários às utopias. 

Na organização Orwelliana aquelas telas utilizadas pela polícia do pensamento eram utilizadas para o julgamento por parte da sociedade representaria, segundo eu, à Sociedade Disciplinar. Tomando em conta que nossas instituições disciplinares não diferem muito das instituições disciplinares no mundo de 1984 (Quarto 101), mas também como nós mesmos somos julgados pelos nossos pensamentos, que para mim seria a Sociedade de Controle. Por outro lado, na série “The Handmaid’s Tale” o “centro vermelho”, um exemplo que representaria a sociedade disciplinar e o fato que todo mundo é espiado ou observado por alguém, os olhos / “Sob o olho dele” (Deus),  seria uma representação da sociedade de controle, pois mesmo se não tivesse alguém te olhando, é você com a sua própria consciência que esta olhando sobre você mesmo.

As cenas fortes de violência na série “The Handmaid’s Tale” traz um exemplo vivido sobre o como funcionaria o Biopoder. Uma sociedade que esta ligada diretamente entre julgamentos, pensamentos e ideologias, tem controle sobre a sua própria reprodução e controle. O problema no que se baseia a série, tem a ver um mundo onde os nascimentos estão em declínio e esse argumento é o utilizado para justificar todos os atos de violência, estrupo e assassinatos em Gilead.

Tanto Oceania como a República teocrática de Gilead (os países onde se desenrolam as histórias de 1984 e The Handmaid’s Tale, respetivamente); seriam o que se conhece melhor como Estado de Exceção. Pois nos dois países se fala de “ontem” ou de “como era antes” quando as pessoas gozavam da liberdade, e ao mesmo tempo como pouco a pouco algumas pessoas de bios passaram a ser zoé. Em cada um dos países existe um grupo que é excluído tanto por raça, por religião ou por género. E em cada caso como estão no Estado de exceção se pode matar e reduzir o povo, e ninguém vai ser punido por isso.     

O poder do Império em 1984 seria reconhecido pelos diferentes tipos de ministérios criados na Oceania ministério do amor, da paz, da abundância, e da verdade; pensando claro que cada um desses nomes outorgados aos ministérios se refere aos conceitos etimológicos contrários de cada palavra. Ao mesmo tempo como a sociedade de Gilead divide às pessoas a continuação se mostra por ordem de importância; comandantes(H) , anjos(H), guardiões(H), esposas(M), tias(M), marthas(M), econopeople(H-M), aia(M), unwomen(M) – não mulheres (mulheres estéreis, viúvas, feministas etc.), e os unbabies(H-M) – não bebês (bebês que nascem mortos ou crianças que tem algum defeito congênito)

Acaba sendo muito difícil não se preocupar com os eventos de massacres, e injustiças que vivemos no mundo hoje em dia, mas é muito mais aterrador pensar que essas histórias que DEVERIAM constar apenas nos livros, estão se tornando realidade. 

Numa entrevista, quando o entrevistador perguntou para Atwood se ela acha possível que seu livro (O conto da Aia) virasse realidade… ela respondeu, que espera que não, mas que todas as coisas horríveis que aconteceram na segunda guerra mundial foram previstas e detalhadas no livro do Hitler (Mein Kampf), na época ninguém acreditou que alguma coisa assim ia a acontecer, mas aconteceu…

Simplesmente posso concluir que talvez a nossa salvação esta na resistência.

Sandra Barzallo

Relação entre os artigos: Una mirada del currículo escolar: Desencantos y promesas en la educación peruana;(HH Alarcón Diaz, J Condori e MA Alarcón Diaz) e Diretrizes políticas globais e relações políticas locais em educação (S. Ball)

Sandra Barzallo M.

A relação que vou tentar fazer entre o artigo intitulado Uma mirada del currículo escolar: Desencantos y promesas en la educación peruana, de HH Alarcón Díaz, J Condori e MA Alarcón Díaz e o artigo da “leitura de base” vai ser direcionada a como os diferentes currículos implementados no Peru estão sendo trazidos desde o concepto a Globalização, aquela ideia na qual a educação tem que ser “equitativa” para todos. Isso, sem tomar em conta as diferenças e as particularidades de cada país, como Peru que tem dentro do seu território diferentes tipos de classes sociais e culturas.

O artigo de HH Alarcón Diaz, Gutiérrez e MA Alarcón Diaz traz um conceito muito interessante sobre a educação que vai ajudar a entender como este termina sendo considerada na nossa sociedade “em desenvolvimento”.

La educación es la liberación de la persona para que sea formada con autonomía, capaz de sostenerse por sí misma y que actúe de la mejor manera de acuerdo con los principios éticos y democráticos que le son propios de sus sistemas de gobierno. (HH Alarcón Díaz, Gutiérrez e MA Alarcón Díaz)

Uns dos temas principais da nossa leitura de base é a globalização, e a classifica em 4 perspectivas que têm como foco a transformação da sociedade; econômica, política, cultural e social.(Ball S. 2001 p.101)  O artigo de HH Alarcón Diaz, Gutiérrez e MA Alarcón Diaz traz como ponto mais forte a análise do âmbito cultural e social deixando um pouco de fora os âmbitos econômicos e políticos.

            No âmbito cultural, os autores reconhecem a pluralidade cultural do Peru, especificamente quando denotam a existência de 47 línguas que se falam nesse país. No entanto, o relato sobre o professor discriminando as crianças Fátima e Eder é muito chocante, pois eles não falam muito bem o espanhol, por causa da sua aproximação com a comunidade indígena na qual eles pertencem. Mas, será que a culpa é inteiramente do professor? Na minha opinião, não é, porque ele atua conforme o currículo escolar que tem, mas ele tem uma responsabilidade compartilhada sim, por não repensar nesse currículo e fazer o que os autores chamam de “justicia curricular”. É preciso que os professores logrem dar um giro ao currículo escolar e conseguir que todos seus estudantes atinjam o conhecimento necessário. O papel do professor tem que, definitivamente, passar de ser um tecnicista a ser um verdadeiro acadêmico, utilizando métodos inclusivos e igualitários que permitam que os estudantes, sem importar seu capital cultural, aprendam o que devem aprender.

            O lado social da globalização na Educação é muito assustador, pois o sistema educativo como instituição social desvincula as crianças provenientes de setores menos favorecidos da sua sobrevivência ao futuro, criando relações de desigualdade que condenam os alunos ao fracasso. Esses grupos interatuam dentro da escola, trazem consigo o capital social e cultura estudado por Bourdieu. O problema é que as crianças não têm ideia desses conceitos, e está nas autoridades da escola, como professores e diretores, identificá-los para assim agir de um modo inclusivo entre os alunos, pois esse capital, social e cultural, é algo que já está no estudante. 

            No texto de Ball se traz o conceito da “glocalização”, e ele indica que a se poderia dizer que a globalização tem sido analisada como uma “simplificação exagerada”, eu consigo compreender o termo fazendo a relação entre o currículo que vem desde o governo a través das políticas públicas, que chega até a sistema educativo. Cada vez que se enxerga ao currículo, é como se um novo descobrimento estivesse acontecendo, e isso é reafirmado quando o autor diz:

“a globalização invade os contextos locais, mas não os destrói; pelo contrário, novas formas de identidade e auto expressão cultural local são, por consequência, conectadas ao processo de globalização” (Giddens 1996 P.367-368)

O autor indica que as políticas são muito frágeis, pois não se pode ter certeza que isso vai funcionar ou não; elas são retrabalhadas, aperfeiçoadas, ensaiadas e moduladas através de complexos processos de influência, produção e disseminação. Para mim, o mais importante seria não somente olhar para essas políticas como algo novo, um descobrimento incrível, mas também com um olhar de crítica e de análise, que seja capaz de entender se elas podem realmente ser utilizadas e aplicadas no nosso contexto como sociedade e, assim, não criar essa “violência simbólica” dentro dessa ação pedagógica.

No artigo de  HH Alarcón Díaz, J Condori e MA Alarcón Díaz se discute sobre os resultados dos testes internacionais PISA que os estudantes no Peru alcançaram no ano 2015, e como eles, os autores, puderam entender que o trabalho do professor [na perspectiva do PISA], não era mais de um profissional na educação, mas de um “tecnicista”, pois os resultados desses testes foram pouco favoráveis, e os desempenhos foram realmente mínimos. Na minha tentativa de olhar além dos artigos, no artigo do Ball, ele faz uma referência ao relatório da OCDE (1995) e fala deles como “o novo paradigma da gestão pública”, podendo identificar que as palavras-chave dentro deste relatório seriam: eficácia, criação de ambientes competitivos, forma automática, flexibilidade, custo reduzido etc. Pela primeira vez se pode visualizar a necessidade de um “gestor”, pois segundo o autor, o propósito do relatório é “encorajar os gestores a centrarem-se nos resultados, conferindo-lhes flexibilidade e autonomia na utilização dos recursos humanos e financeiros”. Então não é somente de que se deve criar gestores, no meu ponto de vista, os gestores poderiam ser os professores.

Continuando com a discussão sobre o professor, é importante reconhecer o papel que ele tem dentro da escola diante a desigualdade social. O currículo não está feito para socorrer esse dilema, é por isso que a maneira na que os professores atuam deveria ser visando as consciências históricas como a “crítica e a genealógica” (Braslavsky, 2005, p.7). Segundo o artigo de Ball (2001), o currículo representa o pacote de reformas, também conhecido como “estratégia coletiva radical”. Aquela que pode ser considerada como o caminho, mas não o objetivo a ser atingido, e que implica “ganhos e perdas”, mas também traz consigo novas relações, valores e culturas. Cultura visada ao desenvolvimento de uma “cultura para o desempenho competitivo”.

Gonzalez, Eguren e Belaúnde (2017) indicam que “as práticas dos professores não são enfocadas na construção das aprendizagens, senão nas repetições rotineiras e padrões mecânicos nos quais os estudantes têm que participar”. 

É isso que faz com que os professores somente ensinem aquilo que se amostra no currículo como a cultura de “auto interesse” que se afasta do conceito de comunidade, e se aproxima ao “currículo oculto”, que é a parte que fala das desigualdades, a natureza das relações sociais entre pessoas que na escola leva a considerar mais importante aquele com uma classe social mais alta do outro. Dentro desse currículo também temos a “força transformadora”, um olhar mais empresarial competitivo dos estudantes, e são inculcados para ser eles os responsáveis dos seus triunfos e fracassos, o qual nos leva aquilo que o Ball chama de “performatividade” pois emprega julgamentos, comparações, e exposição como forma de controle, atrição e mudança.

Por fim, o ato de denúncia sobre estes assuntos faz que muitas das ações por parte de alguns professores sejam repensadas, e mudadas, pois mesmo se o currículo já está feito, ou é parte de uma lei, esses professores deveram passar de ser simples “técnicos” para ser “académicos”. Criticando, reformulando, fazendo evidentes os erros das políticas nas nossas sociedades, e propondo novos caminhos a seguir é o único médio que temos por enquanto para tentar fazer que pelo menos nas escolas as desigualdades desapareçam e no sistema educativo diminuam.

REFERÊNCIAS

DIAZ, Henry Hugo Alarcón; GUTIÉRREZ, Juan Luis Condori; DIAZ, Mitchell Alberto Alarcón. Una mirada del currículo escolar: desencantos y promesas en la educación peruana. In: SILVA, Fabiany de Cássia Tavares; XAVIER FILHA, Constantina (Orgs.). Conhecimentos em disputa na Base Nacional Comum Curricular. Campo Grande, MS: Ed. Oeste, 2019, p. 55-75

BALL, Stephen J. Diretrizes Políticas Globais e Relações Políticas Locais em Educação. Currículo sem Fronteiras, v.1, n.2, p.99-116, Jul.-Dez 2001.

GIDDENS, A. (1994). Beyond Left and Right: The Future of Radical Politics. Cambridge: Polity Press.

Relação entre os artigos: Política y Educación en América latina: Estado evaluador y evaluación de desempeños educativos (Ma. Lourdes Pinto de Almeida e Enrique Martínez Larrechea) e Tendencia regulatórias e impactos nas desigualdades educacionais (Almerindo Janela Afonso)

Sandra Barzallo M.

O artigo de Almeida começa falando sobre como a partir dos anos 1980 a avaliação no sistema educativo de latino américa, começou ter resultados com grandes mudanças na educação. Mas para chegar até aí, a autora faz relata como eram os governos na região que nessa época no campo da educação “buscaban atribuir a las escuelas públicas y administraciones escolares subnacionales la principal responsabilidad por los resultados educativos” (ALMEIDA, 2015). Isso se atribui a que o Estado passou de ser “Estado Benefactor a promover un nuevo Estado Evaluador” (ALMEIDA, 2015). que vai se focar nos resultados e no desempenho. Sendo que o Estado assumiu a regulação no contexto nacional mesmo se com o passo do tempo tem ocorrido algumas modificações de instrumentos e de estratégias. (AFONSO, 2019).

No texto de Almeida se inicia com a perspectiva histórica e atual do Estado Avaliador, e é muito interessante ver como os conceitos se entrelaçam enquanto se lê o artigo de Afonso, pois através dele fica muito claro a origem tanto do Estado regulador como do Estado avaliador. Mais uma vez os processos da globalização atingem os sistemas nacionais, e entre eles o sistema educativo através dos processos de cambio que levou a redução do papel do Estado que se pode entender como “una cascada de privatizaciones, desregulaciones y recesión comercial” (ALMEIDA, 2015). Nesse sentido Afonso traz outros exemplos para poder olhar melhor a relação do Estado e a Globalização. Um deles é o relato sobre como depois do 11-09-2001 os Estados Unidos graças ao investimento público na indústria bélica mundial, ficou muito mais forte e competitivo.

O conceito de Estado oferecido no artigo de Almeida ajuda muito a compreender sua função que basicamente é caracterizada pela dominação das instituições públicas a traves de um sistema autoregulador. Nesse sentido Afonso indica que essa vontade do Estado de ser sempre o protagonista, não deu certo por causa da “mercadorização” que em outras palavras se refere à privatização. É assim como surge o Estado avaliador, quem se livra da responsabilidade dos resultados da educação, e ao mesmo tempo deixa o sentido de garantia do direito da educação no espaço no estatal. No artigo se indica que isso não significa que o Estado está deixando de ter controle, mas sim que ele passou por uma transformação para substituir os métodos de controle a traves de meios mais liberais (WHITTY, POWER, HALPIN, 1997).

Uma das propostas entregadas por ambos artigos é que o Estado deve atuar com sentido de “accountability” pois essa obsessão pelos resultados, a competitividade, e a comparação não somente tem como finalidade moldar aos sujeitos mas também “confisca el debate democrátivo e impide una reflexión sobre el proyecto político de la escuel ”(ALMEIDA, 2015). Afonso traz um exemplo muito importante para entender melhor a proposta de Almeida. Ele indica que o A3ES em Portugal, é o exemplo mais avançado ou completo de “accountability”, porque “consubstancia de forma articulada os 3 pilares fundamentais constituídos da avaliação, da prestação de contas e da responsabilização” (AFONSO, 2013a) 

A avaliação segundo Afonso, é uma ferramenta de regulação, pois o Estado regulador está mais interessado nos resultados do que nos processos. Estes processos terminam também afetando as desigualdades na escola, pois o aluno(a) termina trabalhando mais no futuro, perante a exclusão social que traz consigo o processo antes de ser avaliados. Essa exclusão social é evidenciada no texto de Almeida quando comenta que estes resultados premiam o desempenho do individuo – instituição ou o punem, criando não só o individualismo, mas também o aumento a competência que até em alguns casos bem poderia ser desleal por causa da corrupção.

As considerações finais tanto do Almeida e do Afonso, têm um sentimento positivo, no sentido em que algo poderia ser feito para melhorar a situação atual no setor educativo. Almeida indica que é possível que o Estado gere opções que sejam capazes de desenvolver os limites e ações do Estado avaliador, também indica que as políticas públicas podem ir além das pressões e gerar outras políticas a partir delas mesmas, ou seja, o autor fala de uma introdução profunda no sistema das políticas.

Sumergirse en las políticas públicas educativas es importante conocer principalmente la hegemonía discursiva, la colonización del vocabulario de las reformas, el bricolaje de conceptos con la intención de dar nuevo sentido a la compresión de los textos oficiales.”(ALMEIDA, 2015) 

Ao mesmo tempo que Afonso indica que mesmo se a terceira via não da resultados favoráveis para o sistema educativo, essa relação de Estado-mercado-comunidade não vá desaparecer, mas que se deveria repensar nelas de um modo diferente e assim até se poderia chegar a pensar que poder ser um beneficio ao setor educativo

REFERÊNCIAS

AFONSO, Almerindo Janela. Tendências regulatórias e impactos nas desigualdades educacionais. Educ. Soc., Campinas, v.40, e0220116, 2019.

ALMEIDA, Maria de Lourdes Pinto de; LARRECHEA, Enrique Martinez. Política y educación en América Latina: Estado Evaluador y evaluación de desempeños educativos. In: NARDI, Elton Luiz; ALMEIDA, Maria de Lourdes Pinto de; VIANA, Isabel Maria Torre Carvalho (orgs.). Políticas públicas e regulação da Educação. Campinas, São Paulo: Mercado das Letras, 2015, p. 141-158.

WHITTY, G.; POWER, S.; e HALPIN, D. (1997). La escuela, el estado y el mercado. Madrid: Ediciones Morata

Leia quando se sinta sem vontade de escrever…

Santa Cruz do Sul, 27 de julho de 2020

Sandrita…

Eu venho hoje com a minha carta para responder as perguntas deixada pelo Professor.

O Seminário criado pelo Diego e as partilhas dentro dele tirou você de um lugar um pouco escuro e onde tinha muito medo. Eu sei que talvez para os outros a sua confissão resulte um pouco dramática, talvez exagerada. Mas imagine como que seria ter os mesmos medos, as mesmas dúvidas e dificuldades que eles têm, e adiciona a isso não ser da área da educação, ser estrangeira, não conhecer a língua e não conhecer a ninguém na cidade como você. Poderia ser considerada uma imagem escura, mas sua vontade de estar nesta área e se converter em pesquisadora, é muito mais forte do que o resto.

Lembre de aquele equatoriano que você admira, Millán Ludeña, ele ganhou o Record Guinness por ser a primeira pessoa em fazer uma maratona no lugar mais perto do sol e no lugar mais profundo da terra, e em uma entrevista lembre o que ele disse:

“Si el reto no te hace temblar las piernas, quizás no es lo suficientemente grande para ti”. Millán Ludeña

Isso me leva a responder a primeira pergunta, para você afinal, estar na pós-graduação significa ajudar as suas pernas a deixarem de tremer. É realmente um desafio enorme sair da sua zona de conforto e pular a um mundo inteiramente desconhecido.

Lembre quão grata você está com a oportunidade de entrar no programa e no seminário pois no percurso você percebeu, que não está sozinha, que talvez em diferentes medidas, mas todos e todas em algum momento tiveram muitas dificuldades no momento da escrita do projeto.

Nesse sentido você se compromete a pensar na sua pós-graduação como “só um mestrado” DEBORA DINIZ. Você sabe das suas limitações, mas também conheçe as suas habilidades e sei que você disfrutara do momento, mesmo se ele venha com “algo” de stress.

Eu quero terminar dizendo para você como que nasceu o seu blog, onde você fala sobre a sua experiência cultural e desafios aqui no Brasil, e que a partir deste seminário decidiu ter uma seção chamada “sobrevivendo a la maestría”  e de certo modo como você se identificou muito com a Karina Kuschnir pois ter um espaço livre para escrever de uma maneira diferente ajuda a você a “desescrever” e é isso o que você se está levando do seminário, pois chegou com muita vontade de aprender sobre os “truques” e terminou conhecendo mais coisas, e até desenvolvendo uma maneira muito linda de continuar com esta aventura chamada escrita.

É uma carta curta, mas está cheia de lembranças para você, quando se sinta sem vontade de escrever ou se sinta perdida na sua escrita.

Agradeço a sua atenção

Atenciosamente.

Tu misma

Linguagem escrita: Una oportunidad para regresar a casa

Por mucho tiempo pensé que el lenguaje era un medio de comunicación que se restringía a una sola forma; el habla, entonces, yo pensaba que esa era la única manera de relacionarlo. ¡Qué equivocada estaba! y ¡qué inmenso es el mundo ante mí!, pues el lenguaje está representado en todo; desde cuando hablamos, hasta como dice Gadamer, filósofo alemán, el momento en que un bebé recién nacido llorando reconoce a su padre y se calma mientras este le cambia los pañales.

Esse é o enigma da linguagem, com seus diversos significados. A linguagem sempre esteve “em casa”, mesmo que não saibamos que ela está ali, pois é inata. No entanto, pretendo estreitar o leque de reflexões sobre a linguagem e focar-me na linguagem escrita, que inicia, segundo Jorge Larrosa, professor de filosofia e doutor em pedagogia, com o processo de pensar do indivíduo.

Cada época lee y escribe de un modo diferente, pero aprender a leer no es solo tener la capacidad de entender el texto, decodificar un idioma, etc. sino ser capaz de escuchar todo lo que se dice, lo que hay para decir, y también todo lo que falta por decir. La lectura es mucho más.

Para mim, nesse momento, o fato de poder compreender uma língua, especificamente a língua portuguesa, representa um desafio enorme, pois a maioria dos textos que li ao longo da minha vida foram escritos em inglês ou espanhol, e pela primeira vez sou exposta de uma maneira “violenta” ao português. Digo violenta como algo positivo, porque agora estou conduzindo minha mente por uma trilha de novas formas de escrever e de pensar.  

Hace poco tiempo leí um artículo sobre Hannah Arendt, y debo confesar que tuve muchas dificultades para leerlo, y entender quien realmente era ella. Es por eso que investigué sobre su vida, y los eventos que la marcaron; como la persecución nazi, su vida dentro de un campo de concentración, la migración hacia los Estados Unidos y sobre todo su contribución literaria en el campo de la política y de la educación.

Atrevo-me a comparar, em certo ponto, esse deslocamento violento com a minha experiência com a língua portuguesa. Tenho certeza que não estou criando nada, pois minhas inspirações remetem às dela, inclusive sua forma de escrever em uma língua estrangeira, nesse caso, língua inglesa; e ainda, lograr êxito no estrangeiro, enfrentando diferenças culturais e dificuldades, tanto na escrita como na leitura.

Pero ¿qué es lo que hace que un escritor escriba bien o mal?, y no estoy hablando de escritura correcta gramaticalmente, sino, que logre llegar al lector usando una lengua “no suya”. Pues pienso que la educación y la comunicación intercultural pudieran ser el camino.

Quando falo em educação, não estou falando sobre algum tipo de treino outorgado ao ser humano, eu falo em termos de inserção e adaptação com foco no cultivo da humanidade do indivíduo. 

Pensar es una lucha diaria necesaria, que nos lleva a escribir, nos lleva a usar el lenguaje como verbo, ponerlo en acción, y crear realidades que nos llevan inclusive a descubrir que nada es nuevo, que nuestros pensamientos ya fueron pensados. Pero es en ese momento que debemos continuar pensando, solo de esa manera no dejaremos de ser humanos. Para mí, el lenguaje siempre será mi manera de regresar a casa. 

Resistência

Eu me considero uma pessoa que precisa de exemplos reais, ou de imagens para estudar, para ter uma melhor compreensão daquilo que estou lendo, pesquisando etc. Não sei até que ponto seja bom meu método de estudo, mas com o passar dos dias, das aulas, das leituras e dos filmes sinto que fico cada vez mais angustiada, abatida e triste. Isso acontece porque enquanto eu estudo, é muito fácil para minha mente procurar alguma situação que possa se assemelhar, mesmo sendo uma experiência pessoal, ou não, e sei que não sou a única.

Nas últimas leituras eu tenho me colocado com muita facilidade nesse lugar ruim, onde fui treinada para seguir um protocolo, um processo, sem pensar nas verdadeiras necessidades da pessoa que estava na minha frente, eu não precisava pensar, somente fazer. Ainda bem que tudo isso já passou.

Mais uma vez Foucault me deixa aturdida agora com o conceito da mão invisível de Adam Smith, na área de administração é outro. A mão invisível abre mercados, dá movimentação à economia, é algo muito positivo para o progresso da sociedade e da economia. Mas depois de assistir o filme, I, Daniel Blake e depois de ter lido sobre o sujeito de interesse no texto de Foucault, não deixo de pensar nos acontecimentos atuais do meu país. 

Durante a pandemia, se demonstrou que uma das famílias mais poderosas do país tinha o controle das compras dos insumos médicos da rede pública de saúde do país, fazendo que o dinheiro do povo seja utilizado para pagar pelos insumos médicos até 10 vezes mais do preço real deles, e os vendedores terminaram sendo parentes ou amigos daquela família. Muitos profissionais da saúde durante a pandemia foram contagiados por falta de insumos, muitas pessoas devem comprar esses insumos de maneira particular para que seus familiares sejam operados. E agora os membros dessa família estão fugitivos.

Será que há uma esperança? Foucault a traz, talvez sem se dar conta. Ele disse que quando o sujeito de interesse deixa de cuidar somente por ele, e começa a pensar em função de um bem coletivo, o sistema começa a debilitar-se, isso que eu me atrevo a chamar de Resistência. E é isso que se evidencia no filme, pois somente quando o personagem principal reclama publicamente que o sistema não funciona, o resto das pessoas concordam e o apoiam. Somente assim é que que ele consegue ser verdadeiramente escutado.

Confesso que mesmo eu terminasse muito triste, ou abatida como falei no começo desta carta, eu estou disfrutando muito deste processo no qual sinto que minha mente continua se abrindo para aprender e entender o mundo de uma melhor maneira.

Trabajo, maestría y PANDEMIA

Es verdaderamente increíble como todo me cambió en estos 3 meses. Pero empecemos desde el comienzo. Diciembre del 2019 recibí la noticia de que me habían aceptado en la maestría que había aplicado, y a pesar de que ya había estado trabajando en ciertos proyectos en la universidad, yo quería tener un trabajo vamos a decir… un poco más formal.

En marzo me contrataron com diseñadora de contenidos en una escuela de idiomas de la ciudad, yo no podía estar más contenta, literalmente saltaba de un lado para otro, además porque mi jefe estaba consciente de que empezaría una maestría, y las clases son los viernes, pero mientras yo trabajara en mi proyecto y avanzara en él, todo estaría bien… Lo triste de esta historia es que un viernes, después de que llegó la pandemia, el proyecto paró y perdí mi trabajo. Me quedé con las palabras de mi jefe… “ponte triste, pero mañana pon de nuevo esa sonrisa en tu cara porque verás que las cosas mejorarán”

La verdad es que ese día viernes pasó muy rápido, y lo único que recuerdo es que sentía una bola entre la garganta y el estómago que no me dejaba realmente procesar lo que había pasado… Pasé triste toda ese fin de semana.

Creo mucho en eso de que las cosas pasan por algo, y aunque aun no lo puedo confirmar, creo que al tener un poco más de tiempo libre conseguiré organizarme para estudiar más… al menos esos temas que no domino… y que verdaderamente me están costando entender.

A partir de ese domingo, supe que los demás domingos de mi vida serán días claves. Ese día organizo enteramente mi semana. Esto lo recordé de una vez que conversaba con una señora me decía que ella el domingo organizaba su semana empezando por la ropa que iba a usar cada día… Bueno, ahora no tengo que ropa organizar porque prácticamente paso todo el día en pijamas.

Pero sí, tengo una agenda, la del celular usaba antes, pero ahora necesito escribir cada cosa, porque lo que organizo son lecturas, y talvéz tenga que ver con el hecho de que soy algo antigua en temas de estudio… ya verán por que…

Entonces esta sería la primera “dica” de este artículo, intenten organizarse con tiempo, usen la agenda que mejor se les acomode, y puede ser un cuaderno normal, o el celular… lo que les funcione mejor.

En mi intento de cogerle el ritmo a esta cuestión en estos 3 meses he recordado lo mucho que me gusta leer, y al mismo tiempo lo aburridas que pueden ser ciertas lecturas… Así que ese es tu caso, durante este periodo piensa en ese libro que leíste y que amaste, que nunca lo olvidarás. Lo pudieras volver a leer, te fascinaría ver todo lo nuevo que encontrarás dentro de él. Otra opción sería en buscar qué tipo de historias te gustaría leer y empezar por ahí.

Honestamente no soy muy fan de recomendar un libro, pero si puedo recomendar qué hacer, tanto en youtube como en instagram, hay muchas personas que hacen reseñas literarias y prácticamente se puede encontrar de todo tipo.

Por ahora lo vamos a dejar ahí, empiecen a buscar una lectura que les guste. Ahora les dejo lo que yo estoy leyendo ahora:

Bilingual Life and Reality – François Grosjean

Y como estamos en el mes en que se cumplen los 20 años de Harry Potter estuve leyendo los siguientes libros de J.K. Rowling

Quidditch through the ages – Kennilworthy Whisp

The tales of Beedle the Bard – Notes by Professor Albus Dumbledore

Fantastic beasts ad where to find them – Newt Scamander

… sí soy un poquito fan de J.K. Rowling. BY THE WAY, Soy de Slytherin…

Let the games begin!!!

Bueno ya debieron haber visto sobre mis inicios un poco torpes de mi maestría… de una lanzándome a escribir como si fuera una gran académica… jajajaja

La verdad es que nada de eso, al comienzo mis dos primeros textos (en portugués) pasaron por las manos de miles de personas que conozco y de quienes valoro sus opiniones, entre ellos, mi profe Mari, y Carlitos Andrés… A lo largo de mis escritas verán que siempre los mencionaré a ellos.

La profe Mari es mi profe de portugués, creo que nunca olvidaré que prácticamente me llevó de la mano al PPGL (Programa de Pós-graduação em LETRAS) de la UNISC (Universidade de Santa Cruz do Sul) y aunque no estoy en el programa de letras, fue ella que me direccionó y me dijo por donde ir. Es mi guía, mi consejera, y la verdad es que como ella dice, es mi amiga.

Bueno, este inicio ha sido un poco turbulento para mí, es que no solo he empezado una maestría en medio de una pandemia… he empezado una maestría en un país que no es el mío, en un idioma que no es el mío, y es en una área que no era la mía…Educación. Esa última parte es la que me emociona, me encanta la idea de estar al fin involucrada en algo que me gusta, y que realmente disfruto.

AHhhhhh!! pero no todo es bonito… a diferencia de lo que conocía… la maestría que estoy haciendo, requiere de una línea de investigación, de un orientador, de un tema de investigación, y de una disertación que deberá ser defendida… D I S E R T A C I Ó N (en mi país las disertaciones las hacen los doctorantes…)

Estoy ingresando en el segundo trimestre de mi primer año, y ustedes no tienen idea de lo asustada que estoy. Pero trato de llevarlo todo zen… Nada de Zen queridos… han pasado 3 o 4 meses y el cuello se me ha quedado tieso 2 veces, se me han desgastado más los dientes porque los aprieto tanto por el stress, se me han salido un par de calces, se me ha pelado la cara, me han salido granos cual adolescente y he terminado yendo al odontólogo, al fisioterapeuta y a la dermatóloga más veces de lo que normalmente voy en un año, he bajado de peso de la angustia… Menos mal Carlitos Andrés me hace acuerdo para levantarme a estirar, de comer, de tomar agua y dormir…

Através de este blog intentaré contarles mis aventuras y para los que me leen y están empezando sus maestrías, les dejaré algunas de las cosas que hasta ahora me están sirviendo para empezar a escribir, para leer más, para no aburrirme, para mantenerme enganchada.

Finalmente, les dejo la primera “dica” (tip) No se vayan a dormir sin antes haber leído algo… (y no hablo de redes sociales…)

Filme: Hannah Arendt – Ideias que chocaram o mundo (2013) – Resenha

Este filme está baseado no julgamento de Adolf Eichmann, ex-chefe nazi, que teve um enorme impacto na vida de Hannah Arendt. Ela era uma mulher alemã, judia, que depois de ser capturada e enviada para um campo de concentração na França, terminou fugindo e exilando-se nos Estados Unidos, morando com o seu marido, Heinrich Blucher, em New York. Arendt, estudou filosofia, e teologia protestante. Seus estudos e pesquisas estão mais relacionados com a política, mas também tem ensaios relacionados com a educação e filosofia.

O dilema dela era usam uma língua estrangeira como ferramenta quando expressava seus pensamentos ao momento de escrever. Ela, como judia, que sofreu por causa do regime Nazi, tentou-se posicionar desde um ponto imparcial, para assim, não deixar que seus sentimentos pessoais interferissem com o momento histórico do julgamento do Eichmann.

A personalidade de Hannah Arendt era muito forte, mistura entre arrogância e vulnerabilidade e, no filme, é representada pela atriz Barbara Sukowa, que consegue fazer-nos perceber a individualidade de Arendt, e como suas ideias começam a mudar o ponto de vista do observador.

Desde o início do filme, se vê uma mulher que após ler no jornal sobre o julgamento, se questiona sobre o fato de que ele ia ser julgado no meio de um povo judaico. Isso denota o sentimento de uma empatia esquisita onde o seu lado de justiça se contrapõe com o pensamento que se poderia considerar como “normal” de querer que ele (o Eichmann) seja tratado da maneira mais injusta possível para que ele pague pelos seus atos como nazi.

O New Yorker, revista reconhecida nos Estados Unidos, é a encarregada de cobrir o julgamento, e aceita que Hannah Arendt esteja em representação deles em Jerusalém, e assim é ela quem escreve o artigo na revista.

Quando inicia o julgamento, se expõe o que Vanessa Almeida descreve em seu artigo “A distinção entre conhecer e pensar em Hannah Arendt e sua relevância para a educação”[1] no qual cita que a ausência de pensamento, não tem nada a ver com a estupidez ou ignorância do sujeito. Dessa forma Eichmann disse que todo o que ele fez, foram instruções que ele recebeu, e devido ao seu juramento como policial da SS, e teve que fazer o que fez (transportar os judeus para sua eliminação), e que ele somente estava cumprindo ordens. Segundo ele, ele não matou ninguém.

O filme não demonstra o que realmente foi escrito no artigo da autora, mas ele mostra o desacerto, o desgosto, da maioria das pessoas quem leram o artigo, especialmente a comunidade judaica. Arendt teve que defender seus motivos porque a maioria das pessoas pensaram que ela estava “defendendo” Eichmann, mas ela disse: “Tentar entender não é o mesmo que perdoar” (Trotta, 2013)[2]

Ele não estava pensando, ele estava fazendo o que ele deveria fazer por causa do juramento que ele fez. A inabilidade de pensar não é uma imperfeição daqueles muitos a quem falta Inteligência, mas uma possibilidade sempre presente para todos – incluindo aí os cientistas, os eruditos e outros especialistas em tarefas de espírito. (ARENDT, 1995)[3]

            Eu fico refletindo nos acontecimentos atuais, onde muitas vezes ficamos pensando, procurando um motivo que justifique as ações malvadas, desumanas e cruéis das pessoas… será que todas essas ações são feitas pela falta de capacidade de pensar do ser humano? E que isso ajudaria em um futuro justificá-las?

            Mesmo se o Estado de Israel não tem pena de morte, pelo caso de Adolf Eichmann, se fez uma exceção, e ele foi morto por enforcamento no ano 1962.

BIBLIOGRAFIA


[1] ALMEIDA, V. (2010). A distinção entre conhecer e pensar em Hannah Arendt e sua relevância para a educação. Educação E Pesquisa36(3), 853-865. https://doi.org/10.1590/S1517-97022010000300014

[2] TROTTA, M. (2013). Hannah Arendt – Ideias que chocaram no mundo. https://www.youtube.com/watch?v=wwbH7HQ27gs&t=3s

[3] ARENDT, H. A condição humana. Tradução R. Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1983.

O sonho da pureza… No olhar do Zygmunt Bauman

Falar de uma sociedade pura nestes tempos não deveria ser necessário, pois isso é um tema do século passado. Ou pelo menos isso é o que uns poucos pensam. Realmente isso é uma utopia. Infelizmente podemos ver atos inumanos em cada lugar do mundo. “O sonho da pureza” pertence ao texto de Zygmunt Bauman intitulado “O mal-estar da pós-modernidade” e fala sobre os diferentes tipos de limpeza sugerida para tornar nossas sociedades mais “puras”.

Bauman faz o relato desde os primeiros anos da idade moderna, onde os homens e mulheres com diferenças físicas, ou mentais eram considerados como loucos, quem eram arrebanhados pelas autoridades da cidade dentro de um navio e jogados ao mar. A representação que isso traz hoje em dia, é o real significado da purificação que a água tem. Bauman disse:

“A intervenção humana decididamente não suja a natureza, e a torna imunda: ela insere na natureza a própria distinção entre pureza e imundície” (BAUMAN 2008).

O que Bauman quer dizer é que é o humano responsável por todas as classificações entre os puros e os imundos do mundo. Alias nos convida a nós questionar sobre o quem tem sido considerado como puro e o quem é o imundo, ou melhor, quem pode viver e quem deve morrer.

            Mas qual é o problema com a pureza? Segundo Bauman, o mundo da pureza é pequeno, não todos entram e é por isso que a sujeira deve ser limpada. Os impuros cruzaram a fronteira sem ter sido convidados, e sempre serão os hóspedes que não podem ser incorporados a qualquer esquema de pureza.

Falando dos venezuelanos que chegaram nos últimos anos ao Equador. Segundo Bauman poderiam ser considerados dentro dO grupo de “sujeira” pois chegaram sem ser convidados, em um intento de controla-eles, vivem em comunidades dentro de espaços determinados pelo governo equatoriano. A maioria deles dizem que quando a situação econômica, social e política do seu país se resolva, eles vão voltar a Venezuela. Eles não querem ser incorporados naquele esquema de “pureza”, nem estão interessados. Isso é algo que comove muito pois isso quer dizer que dentro do país eles não se sentem acolhidos.

Hannah Arendt disse que quando chegamos neste mundo, o mundo já é velho demais[1], pois é um mundo cheio de pré-conceitos, um mundo cheio de regras e modos que nos indicam como devemos pensar, agir, e até como julgar uma pessoa. Um mundo onde não se pensa mais, pois tudo já é obvio (fundo de conhecimentos à mão. ALFRED SCHUTZ). O que realmente preocupa à pureza não é limpar a sujeira, mas sim manter as coisas como estão, é por isso quando o novo chega, deve novamente nascer para saber como ele tem que manter essa pureza.

A forma de pensar sobre a sujeira, não se limita a temas de nacionalidade, pois também pode ser reconhecida nas classes sociais de cada país. Nesse caso, o sujo ou como Bauman disse, o “Novo Impuro” ou “consumidor falho”. Bauman disse:

Consumidores falhos – pessoas incapazes de responder aos atrativos do mercado consumidor porque lhes faltam os recursos requeridos, pessoas incapazes de ser indivíduos livres  

Temos que ter em conta que o mercado de consumidores está sendo atingido nestes momentos pela pandemia da Covid-19, e no mundo inteiro as pessoas estão se repensando sobre a questões que realmente são necessárias. Então, quem é verdadeiramente esse consumidor falho? Como poder reconhecer ele agora?

Mas tem coisas que não mudam, o conceito do purificador local, o vizinho convertido em polícia, pessoas que com o olhar podem julgar a outra pessoa só pelo fato de não estar cumprindo com o indicado nesta pandemia onde usar máscara, ou caminhar na rua com alguém mais está proibido. Ao mesmo tempo, por causa da Covid-19 aquilo que era considerado normal, já não é mais. As restrições são muitas, e mesmo se não se tem a polícia de perto, o vizinho pode acusar.

REFERENCIAS

Almeida, V. S. (2016). Natalidade e educação: reflexões sobre o milagre do novo na obra de Hannah Arendt. Pro-Posições, 24(2), 221-237. Recuperado de https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/proposic/article/view/8642650

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998 (O sonho da pureza, p.13-26)


[1] Almeida, V. S. (2016). Natalidade e educação: reflexões sobre o milagre do novo na obra de Hannah Arendt. Pro-Posições24(2), 221-237. Recuperado de https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/proposic/article/view/8642650